|
O sol parece convidar à vida ao ar livre; apetece passear, ir à praia, ou simplesmente apanhar um banho de sol na varanda lá de casa. No entanto, há cuidados essenciais a ter, para que não se torne o nosso pior inimigo: uma exposição solar incauta pode ter consequências muito graves na saúde.
A Radiação Solar A radiação solar é um conjunto de diferentes comprimentos de onda, sendo que na sua maioria estes são bloqueados pela camada de ozono – apenas 10% das radiações atingem a superfície terrestre.

Das radiações que atingem a superfície da Terra, as que tem efeitos directos sobre a pele são as UV-A e UV-B. Grande parte da radiação UV-B é absorvida e reflectida pelas nuvens; a intensidade que chega à superfície terrestre é variável, dependendo do clima, ângulo de incidência (traduzindo-se em diferenças com as estações do ano e horas do dia), e localização geográfica. Esta radiação é mais intensa durante os meses de Verão e entre as 10 e as 16 horas. A radiação UV-A não é afectada pela passagem através das nuvens, nem pelo estado do clima ou altura do ano e do dia – daí a importância da protecção solar ao longo de todo o ano. Estas radiações penetram mais profundamente na pele, e são as principais responsáveis pelo fotoenvelhecimento, devido à destruição das fibras de colagénio da derme. Os efeitos sobre a pele da radiação UV são variados, e causados de forma diferenciada pelos UV-A e UV-B:

A exposição solar é essencial, principalmente na produção endógena de vitamina D, que nas crianças previne o raquitismo; no entanto, cerca de 30 minutos diários, e não obrigatoriamente de forma directa, são suficientes para a produção desta vitamina.
Efeitos da exposição solar Os efeito nocivos da exposição solar são cumulativos, i.e. exposições excessivas e/ou imprudentes ao longo da vida aumentam grandemente o risco de cancro em idades mais avançadas; a fase até aos 18 é a mais crítica.
De uma forma geral, a queimadura não é sentida senão após 1-4 horas da exposição solar, prolongando-se de 12 a 24 horas. Caracteriza-se por uma pele vermelha, inflamada e dorida Uma exposição mais intensa pode resultar no aparecimento de bolhas, e consequente descamação da pele. Poder-se-á também verificar o aparecimento de febre, calafrios e perda de força. Em casos muito graves, devido à desidratação, a pessoa pode entrar em choque hipovolémico. O tratamento das queimaduras solares consiste na aplicação de produtos e cuidados que visem a regeneração da pele e o apaziguamento da inflamação. Compressas frias e húmidas ajudam a aliviar o ardor. Aconselha-se preparações à base de cobre e zinco, que pelas suas propriedades asseptizantes e cicatrizantes ajudam a pele a regenerar-se. Devido à lesão, a pele tende a perder água mais facilmente, pelo que deve ser ingerida bastante água ao longo do dia. Da mesma forma, a pele lesada representa uma barreira enfraquecida perante infecções, cujo aparecimento atrasa mais o processo de cura; no caso de esta existir, convém consultar o médico o mais rápido possível, para que, se achar necessário, fazer tratamento antibiótico. No caso de inflamação grave, o uso de corticosteróides tópicos pode acelerar a cicatrização. Após a descamação, a nova camada de pele exposta é muito mais sensível ao sol, pelo que devem ser redobrados os cuidados preventivos.
Um tom de pele acobreado é comummente desejado. Mas para o conseguir de forma segura, há cuidados que não devem ser descurados. O bronzeado imediato surge após alguns minutos de exposição solar, e persiste durante 1-2 horas. O bronzeado permanente demora 3-4 dias a surgir, aumentando a sua intensidade nos 2-3 dias subsequentes, diminuindo gradualmente ao longo de semanas/meses. O bronzeado resulta de uma medida adaptativa do organismo à exposição solar. Elementos celulares específicos da epiderme, os melanócitos, em resposta à exposição solar aumentam a produção de melanina (que de forma natural confere a cor à pele), que absorve a radiação UV e evita que esta penetre mais profundamente na pele. Outro mecanismo natural de defesa é o espessamento da epiderme, aumentando também a resistência à penetração da radiação.
As fotodermatoses resultam da penetração mais profunda na pele da radiação UV, o que provoca uma alteração no ADN das células epiteliais. Queratose actínica é uma alteração pré-maligna que resulta de uma exposição prolongada ao sol. Caracteriza-se por uma camada de células hiperqueratinizadas, e identifica-se pelo seu aspecto rugoso, áspero e escamoso. Pode regredir espontaneamente, ou em alguns casos evoluir para carcinoma. O carcinoma espinocelular é um tumor maligno, que afecta principalmente a face, mãos e braços. Tem um crescimento rápido, e a falta de um tratamento precoce pode permitir ao metastização para outros órgãos. O carcinoma basocelular é o tumor maligno mais comum, frequentemente na cabeça e pescoço. Apresenta uma baixa mortalidade, uma vez que não metastiza.
O melanoma é também em tumor maligno, mais grave no sentido em que metastiza rapidamente, propagando-se até órgãos distantes. Pode aparecer em qualquer zona da pele, ou num sinal pré-existente. Ter sempre atenção a qualquer alteração a nível da pele, e para um auto-diagnóstico simples de um sinal, utilizar a regra ABC: Assimetria, Bordas irregulares e Cor variável; caso se verifiquem estas três características, consultar imediatamente um médico.
Protectores solares Existe uma grande panóplia de protectores solares no mercado, pelo que é importante estar-se bem informado para se fazer a escolha mais acertada. Os protectores podem ser compostos por filtros físicos, químicos, orgânicos ou uma conjugação dos diferentes tipos.
- Filtros físicos – óxido de zinco, dióxido de titânio, mica, …
Este tipo de substancias não são absorvidas pela pele, e portanto são especialmente indicados para pessoas com a pele particularmente sensível e/ou intolerante, incluindo pessoas que padecem de dermite atópica. O seu modo de acção é por reflexão, i.e. reflectem toda a radiação que incida sobre a pele – por este motivo, têm um largo espectro de acção. Dada a sua natureza (as partículas do filtro funcionam como minúsculos espelhos que reflectem a luz dispersas numa pasta), implica que a sua aplicação resulte numa camada branca de produto visível sobre a pele, o que os torna cosmeticamente pouco atraentes. No entanto, são a melhor opção para bebés, grávidas e pessoas que padeçam de patologias de pele.
- Filtros químicos – octocrileno, benzimidazole, benzilideno cânfora, …
Os filtros químicos são constituídos de moléculas que são absorvidas pela pele, e no seu interior são capazes de absorver a radiação UV e dispersá-la em forma de calor. Por serem absorvidos pela pele, é-lhe acrescido o risco de alergenicidade/toxicidade, especialmente para pessoas com pele sensível e intolerante. Uma destas substâncias em particular é o PABA (ácido p-aminobenzóico), que é irritante e alergénico, e assim totalmente desaconselhado para peles reactivas.
- Filtros orgânicos – tinosorbs
Estes resultam de uma sinergia dos mecanismos de acção anteriores: penetram parcialmente a pele, funcionando pois como absorvente da radiação UV e dissipando-a em forma de calor, e parcialmente fixam-se à superfície, reflectindo e refractando a radiação. Esta sinergia confere-lhes um espectro de acção alargado, e por outro lado são também bem tolerados por todos os tipos de pele, incluindo a mais sensível. É adequado a crianças, peles sensíveis e idosos.
O índice de protecção (SPF) traduz a razão entre a dose mínima de radiação UV que causa eritema solar (DEM) usando o protector solar em causa e a DEM sem usar qualquer protector, independentemente do tempo de exposição. Isto reforça a ideia que um protector não deve ser utilizado como uma forma para aumentar o tempo de exposição ao sol, mas sim para minimizar a agressão causada por qualquer exposição solar. Dado que a radiação UV-A é responsável não só pelo fotoenvelhecimento, mas também pelo aparecimento a longo prazo de fotodermatoses cancerígenas, é importante que o protector tenha também filtros eficazes contra esta radiação. Isto pode já ser verificado através da existência do símbolo nas embalagens: isto significa que a razão entre a protecção UV-B e UV-A é igual ou inferior a 3, valor considerado pelas directrizes OMS como seguro.
Foto-educação – conceitos a reter Existem conceitos importantes que nunca devem ser descurados para garantir uma exposição solar segura. Nos meses de verão, é de evitar, sempre que possível, a exposição solar entre as 10 da manhã e as 4 da tarde; se por algum motivo for absolutamente necessário, utilizar o vestuário adequado para minimizar o risco: óculos escuros, chapéu de abas largas, t-shirts/camisas de malha apertada, de preferência com mangas.
Atenção aos dias nublados – queimam tanto como um dia de sol. Verifique o seu fototipo e aja preventivamente consoante o seu caso.
No nosso pais, a maior parte da população situa-se no fototipo III, pelo que protecção SPF no mínimo 30+ é amplamente aconselhada.

Diversas superfícies reflectem grandemente a radiação, pelo que não basta estar à sombra para se estar protegido – água, areia, neve… o nevoeiro potencia a radiação incidente. Ao longo da exposição é importante beber bastantes líquidos, para evitar a desidratação, especialmente em crianças. Crianças com menos de 3 anos devem estar constantemente protegidas do sol. É também aconselhável o uso de uma água termal borrifada no corpo várias vezes ao dia, não só para refrescar mas também para hidratar, apaziguar e acalmar a pele e assim minimizar a agressão. O uso de protector solar deve ser ubíquo, e adequado ao seu fototipo; das diferentes formulações existentes no mercado, pode escolher-se a mais conveniente – spray, leite, emulsão, creme, stick…. O importante é espalhar sempre uma camada bastante espessa, sempre antes de sair de casa. A aplicação deve ser renovada sempre de 2 em 2 horas, e sempre após cada banho ou qualquer esforço físico que cause transpiração forte.
É tão fácil ter um bronze bonito e uma pele saudável!
Salomé Falcão Farmacêutica

|